A adolescência sempre foi um período marcado por transformações emocionais, físicas e sociais, mas os casos de depressão entre jovens nas últimas décadas, tornaram o tema uma preocupação crescente para famílias, escolas e profissionais de saúde.
Dados do estudo Informe II: Saúde Mental, produzido por pesquisadores da Fiocruz em 2025, mostram que a população jovem é a que mais sofre internações relacionadas a problemas de saúde mental no Brasil. Ao mesmo tempo, é também a faixa etária que menos procura atendimento na Atenção Primária à Saúde (APS), o que pode dificultar a identificação precoce dos sintomas e o acesso ao tratamento.
Uma geração sob múltiplas pressões
A adolescência é um período de construção da identidade, desenvolvimento da autonomia e busca por pertencimento, nesse processo, o jovem lida com desafios emocionais intensos que podem ser potencializados por fatores contemporâneos. Pressão acadêmica, inseguranças sobre o futuro, comparações constantes nas redes sociais, exposição digital e mudanças nas dinâmicas familiares fazem parte da realidade de muitos adolescentes.
De acordo com Adriel Silva Weber, psicanalista, mestre em neurociências e Gestor de Projetos Científicos do CPAH, essas questões podem aumentar a vulnerabilidade emocional nessa fase da vida.
“A adolescência já é um período de reorganização psíquica muito intensa. O jovem está construindo sua identidade enquanto tenta encontrar seu lugar no mundo. Quando essa fase se soma a cobranças excessivas, isolamento emocional ou dificuldades de adaptação social, o risco de sofrimento psicológico aumenta significativamente”.
Nem sempre a depressão aparece como tristeza
Um dos desafios do diagnóstico é que a depressão em adolescentes nem sempre se manifesta da mesma forma observada em adultos. Além da tristeza persistente, podem surgir irritabilidade, alterações bruscas de comportamento, isolamento social, queda no rendimento escolar, desinteresse por atividades antes prazerosas e dificuldades de concentração.
Em muitos casos, os sinais acabam sendo interpretados apenas como mudanças típicas da adolescência, atrasando a busca por ajuda.
“É comum que o sofrimento emocional do adolescente seja minimizado ou confundido com rebeldia, preguiça ou falta de interesse. Isso pode fazer com que o problema avance sem o suporte adequado”.
Redes sociais e comparação constante
A presença das redes sociais também é apontada como um dos fatores que podem contribuir para o aumento da insatisfação emocional entre jovens.
A exposição contínua a padrões de beleza, sucesso, popularidade e felicidade pode gerar comparações frequentes e uma sensação de inadequação, além disso, a busca por validação através de curtidas, comentários e aprovação virtual pode tornar a autoestima mais dependente de fatores externos.
“A comparação constante cria uma percepção distorcida da realidade. O adolescente passa a acreditar que todos estão vivendo experiências melhores do que as suas, o que pode intensificar sentimentos de frustração, exclusão e baixa autoestima”.
O olhar da psicanálise sobre o sofrimento adolescente
Na perspectiva da psicanálise, a adolescência representa uma fase de profundas transformações subjetivas. É o momento em que antigos referenciais da infância são questionados e novas formas de relação com o mundo precisam ser construídas. Esse processo pode gerar conflitos internos, inseguranças e angústias que, quando não encontram espaços de elaboração emocional, tendem a se intensificar.
“A psicanálise compreende que o sofrimento emocional não surge apenas por um evento isolado, mas pela forma como cada indivíduo vivencia e interpreta suas experiências. Por isso, oferecer escuta, acolhimento e espaço para expressão emocional é fundamental”.
Escolas, famílias e profissionais de saúde têm um papel importante na identificação precoce dos sintomas e no encaminhamento adequado para acompanhamento especializado quando necessário.
“A saúde mental dos adolescentes precisa ser tratada com a mesma seriedade que qualquer outra questão de saúde. Quanto mais cedo o sofrimento for reconhecido, maiores são as chances de promover bem-estar, desenvolvimento saudável e qualidade de vida”, conclui Adriel Silva Weber.


