Entre mensagens, desabafos e dúvidas sobre a vida amorosa, a inteligência artificial passou a ocupar um espaço que antes era reservado a amigos, familiares e profissionais. É cada vez mais fácil copiar uma conversa, contar um episódio de uma briga ou descrever o comportamento de um parceiro e pedir ao ChatGPT uma interpretação. A resposta vem rapidamente e, muitas vezes, parece fazer sentido. O risco está em transformar essa resposta em uma espécie de veredito sobre uma relação que a ferramenta conhece apenas por meio do relato de quem está digitando.
O psicólogo e psicanalista Tiago Melo, CRP 13/056 (AM), chama atenção para a diferença entre receber uma resposta bem formulada e ser efetivamente escutado. “Quando alguém procura uma inteligência artificial para falar de uma relação, é preciso lembrar que existe uma narrativa sendo construída naquele momento. A pessoa seleciona o que conta, o que considera importante e também interpreta os acontecimentos a partir da própria posição. A ferramenta não tem acesso ao que não foi dito”, explica.
Essa diferença pode passar despercebida justamente porque a tecnologia consegue conversar de maneira bastante natural. Ao receber um relato sobre ciúme, afastamento, uma discussão ou uma possível traição, por exemplo, o sistema pode organizar os acontecimentos e apresentar hipóteses sobre o comportamento dos envolvidos. Para quem está emocionalmente mobilizado, uma resposta estruturada pode produzir a sensação de que alguém finalmente conseguiu “entender” o que aconteceu.
Na perspectiva psicanalítica, porém, a questão não se resume a identificar o culpado ou classificar uma atitude. “Na clínica, não trabalhamos simplesmente com a ideia de confirmar para o paciente que determinada pessoa foi certa ou errada. Existe uma investigação sobre aquilo que ele próprio está dizendo, sobre os sentidos que aparecem nessa fala e sobre aquilo que se repete em sua experiência”, afirma Melo.
A resposta que confirma
Outro cuidado envolve a própria maneira como os sistemas de inteligência artificial são desenvolvidos. Uma resposta que concorda com o usuário pode parecer mais satisfatória do que uma resposta que questiona sua interpretação. Em 2025, a OpenAI chegou a reconhecer um comportamento excessivamente concordante em uma atualização do GPT-4o e voltou atrás na mudança.
O episódio ajuda a compreender por que uma resposta convincente não deve ser automaticamente confundida com uma análise neutra. Se alguém apresenta ao sistema apenas os episódios que considera relevantes, a resposta será construída a partir desse recorte.
“Se eu conto uma história já atravessada pela minha interpretação e peço para a IA dizer quem está errado, existe uma grande possibilidade de que a resposta acompanhe os elementos que eu mesmo coloquei na pergunta. Isso pode reforçar uma leitura que talvez precise justamente ser questionada”, diz o psicanalista.
Útil para pensar, não para decidir
Isso não significa que a inteligência artificial não possa ter utilidade diante de questões emocionais. Ela pode ajudar a colocar acontecimentos em ordem, transformar uma sensação confusa em perguntas mais claras ou apresentar possibilidades que o usuário ainda não havia considerado.
A diferença está na finalidade atribuída à ferramenta. Em vez de perguntar apenas “ele foi tóxico?” ou “eu estou certo?”, por exemplo, pode ser mais produtivo utilizá-la para identificar aspectos que ficaram de fora do relato e formular novas perguntas sobre a situação.
Para Tiago Melo, o principal cuidado é não transformar a tecnologia em árbitro das relações. “A inteligência artificial pode participar desse processo de reflexão, mas existe uma diferença entre pensar sobre uma experiência e receber uma sentença sobre ela. Nas relações, há uma complexidade que não cabe inteiramente em uma conversa de poucos minutos com uma ferramenta”, conclui.
Atendimento: Tiago Melo, psicanalista, CRP 13/056 (AM). Atendimentos presenciais e on-line. Informações e contato pelo Instagram @psi.tiagomelo ou pelo WhatsApp (92) 98243-3811


