Setembro Amarelo: Depressão em adolescentes nem sempre aparece como tristeza

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Irritabilidade, isolamento, perda de interesse e mudanças persistentes no comportamento podem indicar sofrimento emocional. O próprio adolescente, no entanto, nem sempre consegue reconhecer ou nomear o que está sentindo, explica a psicóloga clínica e especialista em neuropsicologia Vanessa Bulcão, coordenadora da Unidade de Psicologia do CPAH – Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, em Portugal.

Mudanças de humor, maior necessidade de privacidade, conflitos familiares e transformações no comportamento fazem parte da adolescência. Justamente por isso, identificar quando essas mudanças ultrapassam o esperado para essa fase do desenvolvimento e podem indicar um problema de saúde mental, como a depressão, pode ser uma tarefa complexa.

Durante a adolescência, o jovem atravessa transformações físicas, emocionais, cognitivas e sociais simultaneamente. Em muitos casos, ele próprio tem dificuldade para compreender o que está sentindo e reconhecer que determinados comportamentos podem estar relacionados a um sofrimento psicológico.

Para a psicóloga clínica e especialista em neuropsicologia Vanessa Bulcão, coordenadora da Unidade de Psicologia do CPAH – Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, em Portugal, essa dificuldade torna ainda mais importante a atenção de familiares e pessoas próximas.

“Em adolescentes, identificar a depressão nem sempre é uma tarefa fácil. O jovem pode perceber que está diferente, mais cansado, irritado, desmotivado ou sem vontade de fazer determinadas coisas, mas nem sempre consegue compreender ou nomear o que está acontecendo emocionalmente”, destaca.

Nem sempre a depressão aparece como tristeza

Um dos desafios está no fato de que a depressão não se manifesta da mesma maneira em todas as pessoas, apesar da tristeza persistente seja um dos sintomas mais conhecidos, adolescentes também podem apresentar irritabilidade, isolamento, perda de interesse, alterações no sono e no apetite, dificuldades de concentração e queda no rendimento escolar. Por isso, interpretar todas as mudanças como simplesmente uma característica da adolescência pode fazer com que sinais importantes de sofrimento passem despercebidos.

“A adolescência naturalmente envolve mudanças comportamentais, busca por autonomia e oscilações emocionais. O que deve chamar atenção é quando existe uma mudança persistente e significativa em relação ao padrão habitual daquele adolescente e quando isso começa a causar sofrimento ou prejuízos em diferentes áreas da vida”, explica Vanessa Bulcão.

Mais do que observar um comportamento isolado, é importante considerar há quanto tempo determinada mudança está presente, sua intensidade e se ela começa a interferir nos relacionamentos, na escola, nas atividades cotidianas, no autocuidado ou na vida social.

Irritabilidade persistente também merece atenção

Enquanto alguns adolescentes se tornam mais silenciosos e isolados, outros podem demonstrar sofrimento por meio de irritabilidade frequente, conflitos ou reações emocionais mais intensas. Essas alterações podem afetar a relação com familiares, amigos e colegas e, em alguns casos, fazer com que o sofrimento emocional seja interpretado apenas como rebeldia, desinteresse ou mau comportamento.

“É preciso compreender o contexto. Uma discussão pontual ou um período de maior irritação não significam necessariamente depressão. Mas quando diferentes mudanças persistem e começam a interferir nos relacionamentos, no desempenho escolar, no autocuidado ou na rotina, é importante olhar para esse adolescente com mais atenção”, afirma.

Perda de interesse também pode ser um sinal

Outro possível sinal é a perda de interesse ou de prazer em atividades que anteriormente eram importantes para o adolescente. O jovem pode deixar de demonstrar entusiasmo por hobbies, esportes, estudos, encontros com amigos ou outras atividades que anteriormente despertavam satisfação. Em alguns casos, continua realizando suas tarefas, mas demonstra menor envolvimento ou prazer.

Alterações persistentes no sono ou no apetite, cansaço frequente, dificuldades de concentração, sentimentos de inutilidade ou culpa e uma visão muito negativa sobre si mesmo ou sobre o futuro também podem acompanhar quadros depressivos.

Falas recorrentes de desesperança, desejo de desaparecer, comentários sobre morte, comportamentos de autoagressão ou pensamentos relacionados ao suicídio devem ser sempre levados a sério e avaliados por profissionais de saúde.

A importância de criar espaço para conversar

Nem todo adolescente conseguirá procurar espontaneamente os pais ou responsáveis para falar sobre o que está sentindo. O medo de ser julgado, a dificuldade para organizar os próprios sentimentos ou a crença de que ninguém irá compreender podem criar barreiras para o diálogo. Por isso, construir um ambiente de confiança pode fazer a diferença.

“O jovem precisa sentir que existe um espaço seguro para falar sem ser imediatamente julgado, criticado ou diminuído. Muitas vezes, antes de procurar uma solução, ele precisa conseguir expressar aquilo que está vivendo e sentir que alguém realmente está disposto a ouvi-lo”, ressalta Vanessa Bulcão.

Ouvir não significa necessariamente interrogar o adolescente ou tentar solucionar imediatamente aquilo que está acontecendo. Demonstrar disponibilidade, acolher o sofrimento e manter o diálogo aberto pode facilitar a procura por ajuda quando ela for necessária.

Atenção sem transformar tudo em diagnóstico

Observar mudanças não significa diagnosticar o adolescente em casa. A presença de alguns desses sinais, isoladamente, não significa necessariamente que exista um transtorno depressivo. Sintomas semelhantes podem ocorrer em diferentes situações e condições de saúde mental.

O diagnóstico exige uma avaliação profissional que considere o conjunto dos sintomas, sua duração, intensidade, contexto, histórico do adolescente e impacto sobre o funcionamento cotidiano. Ainda assim, mudanças emocionais ou comportamentais persistentes que causam sofrimento ou prejuízo não devem ser ignoradas.

“O mais importante é não esperar que o sofrimento se torne extremo para procurar ajuda. Quando mudanças emocionais ou comportamentais persistem e começam a interferir na vida do adolescente, buscar avaliação profissional é uma forma de cuidado e prevenção”, conclui Vanessa Bulcão.

Em situações envolvendo autoagressão, tentativa de suicídio, intenção de morrer ou risco imediato, o adolescente não deve permanecer sozinho e deve ser encaminhado para atendimento de urgência.

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