sexta-feira, 12 abril, 2024
sexta-feira, 12 abril, 2024

Hotel Íris, o polêmico romance de Yoko Ogawa ganha tradução direta do japonês

Em

Yoko Ogawa, em Hotel Íris, concede a narração à personagem Mari, uma adolescente de dezessete anos que trabalha na recepção do hotel que dá título ao livro. O estabelecimento fica em uma região litorânea e é um negócio de família, que tem como administradora a mãe da jovem, uma mulher linha-dura e viúva.

A ordem do cotidiano é comprometida quando, certa noite, irrompe uma discussão entre uma prostituta e um homem misterioso, hóspedes no quarto 202. Após o escândalo, Mari sente-se atraída pelo homem, que conta cerca de sessenta anos, está às voltas com a tradução de um romance russo e tem um passado suspeito quanto à morte de sua esposa. Os dois iniciam um relacionamento para lá de controverso, com uma busca pelo prazer por meios degradantes, humilhantes e violentos.

Com excelente controle narrativo, Ogawa demonstra em Hotel Íris como a memória, tema recorrente em suas ficções, pode adquirir formas variadas e nada óbvias. Determinado desejo, por exemplo, que parece estranho demais e até inexplicável — como pode alguém querer isso?, perguntamos –, à luz de uma lembrança torna-se compreensível e confere sofisticação à história, pois se revela uma associação inesperada na trama.

Mari, a despeito da pouca idade e dos absurdos a que se submete, possui sabedoria o suficiente para questionar as recordações pessoais e alheias, além de perceber que nem ela, nem ninguém, se livra tão fácil de traumas graves. Em observação de seu próprio caso, ela pode afirmar, conforme diz a determinada altura da narração, que “expôs o lado mais abjeto de um ser humano”.

SOBRE A AUTORA

Yoko Ogawa nasceu em Okayama, em 1962. Sua vocação leitora foi despertada precocemente por clássicos infantis, graças a um sistema de assinatura de livros de que a família dispunha. Gosta de citar O diário de Anne Frank como uma referência decisiva para perceber a escrita como via possível e necessária de autoexpressão. Estudou escrita criativa e publicou diversos livros, entre ficção e não ficção. Vive atualmente em Nishinomiya, província de Hyogo — nas proximidades de Kyoto.

Arrebatou todos os prêmios referenciais do meio literário japonês. No Brasil, a autora publicou O museu do silêncio (2016); A fórmula preferida do Professor (2017), obra que foi vertida para o cinema pelo diretor Takashi Koizumi, ex-assistente de Akira Kurosawa; A polícia da memória (2021), cuja tradução para o inglês foi finalista do International Booker Prize; e A piscina; Diário de gravidez; Dormitório: três novelas (2023). Todos os títulos foram publicados pela Estação Liberdade.

TRECHOS

“Tudo aconteceu quando eu me preparava para trancar a caixa registradora, apagar as luzes do saguão e ir para os fundos. Ouviu-se de súbito um som seco como o de um objeto pesado chocando-se contra o soalho, e logo a seguir ressoou o grito de uma mulher.” [p. 9]

“Pela janela vi o homem andando pelo píer e sendo tragado pela multidão. Apesar da estatura baixa, de terno ele se destacava entre os turistas. Em determinado momento ele se voltou para trás. Eu acenei, mesmo achando cômico fazê-lo para um homem sem relação comigo e de quem ignorava até o nome. Ele fez menção de erguer a mão para responder ao meu gesto, mas a enfiou no bolso, parecendo constrangido.” [p. 23]

“Naquele aposento onde tudo era bem ordenado, da cristaleira à colcha da cama, da mesa de trabalho às letras no caderno, eu era a única a transgredir essa ordem. Meu vestido e a roupa de baixo estavam espalhados por todo lado, e eu era um corpo insólito estirado sobre o sofá.” [p. 65]

“Os dedos procuraram a entrada das trevas. De alguma forma as coisas pareciam caminhar para seu ápice. A impressão era de que tudo dentro dos meus pelos pubianos seria estraçalhado. Tentei fechar as dobras de algum jeito com medo de que acabassem explodindo antes de chegar ao prazer. Porém, a corda que atava minhas pernas não se moveu nem um milímetro.

Os dedos penetraram nas trevas. O homem adentrou sem titubear um local onde nem eu própria jamais tocara. A ponta dos dedos girava dentro da fresta com suas laterais de carne tépida.” [p. 69]

“Nessa noite aconteceu um pequeno incidente na recepção. Um hóspede voltou embriagado e tocou nos meus seios.

— Opa, foi mal. Minha mão escorregou sem querer.

O hóspede soltou uma risada repugnante.

Na hora eu não entendi o que ele fez comigo. Quando ele estava colocando a chave sobre o balcão, sua mão veio na minha direção e apalpou um dos meus seios. Precisei de alguns segundos para entender o sentido do seu gesto. Eu continuava com uma sensação desagradável no peito.

Larguei a chave e gritei. Passei várias vezes a mão no peito como se os dedos do hóspede ainda estivessem grudados nele. Ao me ver fazer isso, o homem riu ainda mais.

— Garota, não precisa ter tanta aversão. Não tive malícia. Foi só um deslize meu! Um deslize, ouviu?

Cambaleante, o homem apoiou os cotovelos no balcão e me encarou com olhos vermelhos. O bafo alcoólico se avizinhou. Voltei a gritar a plenos pulmões.” [pp. 89-90]

Compartilhar
Tags

Mais lidas

Recentes

Veja Mais

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.