O Dia Mundial da Saúde Sexual, celebrado em 4 de setembro, amplia a discussão sobre prazer, consentimento, prevenção e autocuidado; especialista explica por que informação também é uma ferramenta de saúde.
Quando se fala em saúde sexual, a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e de uma gravidez não planejada costuma ocupar o centro da conversa. Mas o cuidado com a sexualidade vai além da prevenção: também envolve conhecer o próprio corpo, compreender desejos e limites, estabelecer relações consensuais, lidar com questões emocionais e buscar ajuda diante de dores, dificuldades ou mudanças que afetem o bem-estar.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a saúde sexual parte do bem-estar físico, emocional, mental e social e defende uma abordagem que não se limite à ausência de doenças ou disfunções. A discussão ganha destaque com a proximidade do Dia Mundial da Saúde Sexual, celebrado em 4 de setembro. Em 2026, a campanha internacional tem como tema “Every Body”. A proposta amplia o olhar sobre o assunto e ajuda a colocar em evidência uma questão que ainda é atravessada por tabus: informação sobre sexualidade também pode ser uma forma de cuidado com a saúde e de promoção do bem-estar.
Para o especialista em Sexologia e Sexualidade Januário Mourão, à frente do projeto Prazer! Te conhecer, esse cuidado começa pela relação que cada pessoa estabelece com o próprio corpo. O acesso a informações confiáveis pode ajudar a reconhecer limites, compreender sensações, identificar alterações e tomar decisões com mais autonomia. Segundo ele, quando esse conhecimento não está disponível, dúvidas sobre sexualidade acabam sendo respondidas por fontes nem sempre confiáveis, o que pode aumentar inseguranças e perpetuar conceitos equivocados.
“A educação sexual é fundamental porque oferece ferramentas para que as pessoas compreendam o próprio corpo, reconheçam limites, expressem desejos, estabeleçam relações consensuais e tomem decisões mais conscientes. A ciência não pode ser substituída por ‘achismos’, experiências isoladas ou conteúdos produzidos apenas para gerar engajamento. A sexologia possui pesquisas sérias sobre anatomia, comportamento, desejo, resposta sexual, saúde, relacionamentos e diferentes fases da vida. Quando esse conhecimento não chega à população, o espaço é ocupado por mitos, preconceitos e promessas sem fundamento”, explica.
As dúvidas que chegam ao trabalho do especialista mostram como a falta de informação pode se misturar a questões de autoestima, desempenho e expectativas sobre o que seria uma vida sexual considerada “normal”. Entre os temas mais recorrentes estão o tamanho do pênis, a duração de uma relação sexual, disfunção erétil, anorgasmia, zonas erógenas, desejo sexual, masturbação e dificuldades de comunicação entre parceiros. Para Januário, essas questões não devem ser analisadas apenas pelo comportamento sexual em si, porque muitas vezes revelam cobranças e padrões construídos socialmente.
“Essas dúvidas geralmente não aparecem isoladas. Por trás da preocupação com o tamanho do pênis, por exemplo, muitas vezes existe uma ideia de masculinidade baseada em comparação, desempenho e validação. A disfunção erétil também pode estar relacionada à ansiedade, à cobrança e ao medo de não corresponder às expectativas. Entre as mulheres, são frequentes questões sobre dificuldade de alcançar o orgasmo, desconhecimento do próprio corpo, diferença de desejo nos relacionamentos e naturalização da dor durante o sexo”, afirma o especialista.
A relação com o próprio corpo também aparece de maneiras diferentes entre homens e mulheres. Segundo Januário, enquanto determinadas cobranças sobre os homens estão associadas à ideia de desempenho e virilidade, muitas mulheres ainda chegam à vida sexual com pouco conhecimento sobre o próprio prazer e com a percepção de que determinadas experiências de desconforto ou dor seriam naturais. Nesse sentido, falar sobre sexualidade não significa apenas discutir práticas, mas também questionar comportamentos e expectativas que podem comprometer a saúde e o bem-estar.
“Ainda existe uma educação que ensina muitas mulheres a cuidar do prazer do outro, mas não a reconhecer, comunicar ou priorizar o próprio prazer. No campo do antimachismo, aparecem questões ligadas ao comportamento masculino, à dificuldade de demonstrar afeto, à violência, ao ciúme, à paternidade, à divisão do trabalho doméstico e à resistência em reconhecer privilégios ou rever práticas naturalizadas. Meu trabalho procura mostrar que as dúvidas consideradas individuais frequentemente revelam questões sociais mais amplas”, destaca Januário.
Além do conhecimento sobre o próprio corpo, a saúde sexual também passa pela capacidade de estabelecer relações baseadas em comunicação, respeito e consentimento. Saber expressar desejos, reconhecer limites, conversar sobre desconfortos e compreender quando uma situação ultrapassa aquilo que foi consentido são aspectos que interferem diretamente na forma como as pessoas vivenciam a sexualidade. Por isso, uma abordagem de saúde sexual não pode separar o corpo das relações, dos afetos e das condições emocionais envolvidas.
Essa perspectiva também amplia o papel da educação sexual. Para o especialista, falar sobre o tema de maneira responsável significa oferecer informações que ajudem as pessoas a tomar decisões e reconhecer situações que exigem atenção. Isso inclui prevenção de ISTs e gravidez, mas também conhecimento anatômico, autocuidado, consentimento, diversidade corporal, afetividade, comunicação e identificação de situações de violência ou sofrimento.
“A ausência de informação também aumenta a vulnerabilidade. Pessoas que não conhecem o próprio corpo podem ter dificuldade para reconhecer situações de violência, identificar sintomas, procurar ajuda ou entender que dor, medo e constrangimento não deveriam ser tratados como partes inevitáveis de uma relação sexual. Uma educação sexual responsável não ensina apenas práticas sexuais. Ela aborda consentimento, respeito, prevenção, autocuidado, diversidade corporal, saúde, afetos, limites, comunicação e responsabilidade”, ressalta.
Especialista em Sexologia e Sexualidade, professor PhD em Anatomia e psicanalista, Januário Mourão atua há mais de duas décadas com temas relacionados a corpo, prazer, comportamento e masculinidades. À frente das iniciativas ‘Prazer! Te conhecer’ e ‘Antimachismo Social Club’, ele defende que ampliar o acesso à informação é uma das formas de transformar a relação das pessoas com o próprio corpo e com a sexualidade.
“Cuidar da saúde sexual também é cuidar da saúde como um todo. Isso passa por conhecer o próprio corpo, compreender os próprios limites, saber comunicar desejos, respeitar o outro e entender que prazer, consentimento, prevenção e autocuidado não são assuntos separados. Quando conseguimos falar sobre sexualidade com informação e responsabilidade, também criamos condições para relações mais conscientes, seguras e saudáveis”, conclui Januário.


